Inaugurado em 1948, o Teatro Brasileiro de Comédia foi um divisor de águas no teatro e dramaturgia de nosso país. O TBC trouxe ao trabalho teatral, estabilidade, dedicação direcionada e segurança nos projetos.
Marcou o início de uma profissionalização mais profunda no teatro de São Paulo, revelou grandes talentos, como Cacilda Becker, Walmor Chagas, Sérgio Cardoso, Bibi Ferreira, Tônia Carrero, Paulo Autran, Fernanda Montenegro, Ziembinski, Flávio Rangel, Antunes Filhos, Jorge Andrade, Guarnieri, Dias Gomes, entre outros. De 1948 a 1964, apresentou 144 peças, espetáculos de música e poesia, em quase 9.000 representações.
O TBC deslocou o centro teatral do Rio de Janeiro para São Paulo, surgiu com 350 lugares e acompanhou a modernização da cidade. Para concorrer com as salas de cinema, os teatros entraram numa tendência de instalações pequenas e baratas de serem construídas e mantidas. Entre as peças mais marcantes do TBC, podemos destacar “A Voz Humana”(1948) ; “O Mentiroso” (1950) ; “Seis Personagens à Procura de um Autor “(1951) ; “Volpone” (1955); “A Semente” (1961) ; “ Os Ossos do Barão” (1963); Além do “O Pagador de Promessas” (1958).
O TBC surgiu em consequência de uma fase promovida por Francisco Zampari, um amante das artes, que escreveu em 1945 uma peça de teatro chamada "A mulher de Braços Alçados". Napolitano, engenheiro das Indústrias Matarazzo, apresentou sua peça numa festa da alta sociedade de São Paulo. Essa "brincadeira" entre amigos é a semente que brota e acaba motivando Zampari para uma dedicação mais profunda ao teatro.
Obra de Mário de Andrade Nas décadas 30 e 40 predominavam no teatro brasileiro, espetáculos humorísticos centralizados em um ator principal, valorizados por sua habilidade e capacidade de se comunicar diretamente com o público e improvisar perante ele. Normalmente o ator era o dono da companhia e sua principal atração. Jaime Costa, Procópio Ferreira e Dulcina de Morais são exemplos.
Nos anos 40 grupos constituídos por universitários, intelectuais e profissionais liberais se organizavam em busca de transformar uma prática teatral que lhes parecia ultrapassada. Suas ações tinham dois alvos prioritários: o repertório e a técnica, que deveriam ser modificados, atualizados.
Movidos à força da paixão, os amadores brasileiros sonharam com um teatro radicalmente transformado e viabilizaram parte desse projeto na esfera não profissional que era a sua, contaminaram com ideais algumas personagens-chaves. Como foi o caso de Francisco Zampari, que viria a ser o fundador, o patrono do Teatro Brasileiro de Comédia.
Ele transformou um velho casarão em teatro aparelhado com 18 camarins, duas salas de ensaio, uma sala de leitura, oficina da carpintaria e marcenaria, almoxarifados para cenografia e figurinos, além de modernos equipamentos de luz e som. Um luxo para a época. O que confirma a ideia que de ser um teatro feito para a elite da época.
Na noite de 11 de outubro, o TBC estreiou com espetáculo duplo. "A Voz Humana", monólogo de Jean Cocteau, interpretado em francês pela atriz Henriette Morineau e a peça "A Mulher do Próximo", escrita e dirigida por Abílio Pereira de Almeida. No elenco estava a jovem atriz Cacilda Becker, que mais tarde se tornaria um dos maiores mitos do teatro brasileiro. A estréia foi um sucesso. Seguiram-se outras produções de amadores até que, em 1949, o conjunto se profissionaliza, lançou "Nick Bar...Álcool, Brinquedos, Ambições", de William Saroyan, sob a direção de Adolfo Celi.
A contratação do encenador italiano, formado pela Academia Nacional de Arte Dramática de Silvio D'Amico, é decisiva para o futuro da companhia. Com Celi, o elenco permanente inicia um longo aprendizado técnico e artístico, submetendo-se às exigências de uma montagem moderna, esteticamente sofisticada. Aldo Calvo, o primeiro cenógrafo contratado, ratifica essa opção. Cacilda Becker é a primeira atriz profissionalizada e à sua contratação seguem-se as de: Paulo Autran, Madalena Nicoll, Marina Freire, Ruy Affonso, Elizabeth Henreid, Nydia Licia, Sergio Cardoso, Cleyde Yáconis, entre outros.
Os textos são escolhidos em função das dificuldades técnicas oferecidas mas, igualmente, de olho na bilheteria, no gosto do público. Na temporada de 1949, são apresentados "Arsênico e Alfazema", de Joseph Kesselring, e "Luz de Gás", de Patrick Hamilton, ambos dirigidos por Celi, exercícios que antecedem as montagens de "Ele", de Alfred Savoir; e "O Mentiroso", de Carlo Goldoni, primeiras direções de Ruggero Jacobbi na casa. Os tecidos dos figurinos são especialmente confeccionados na tecelagem Matarazzo; armas e adereços são forjados em metalúrgicas, contribuindo para o brilho e o sucesso, sem precedentes, até então.
Em 1950, seguem-se "Entre Quatro Paredes" (Huis Clos), de Jean-Paul Sartre, trazendo à cena o existencialismo como pano de fundo para a atitude amoral dos protagonistas; "Um Pedido de Casamento", de Anton Tchekhov, ambas direções de Adolfo Celi; e "Os Filhos de Eduardo", de Marc-Gilbert Sauvajon, dirigido por Ruggero Jacobbi e Cacilda Becker; realizações bem feitas que preparam outra grande produção "A Ronda dos Malandros", de John Gay, controvertida montagem de Jacobbi que deixa abruptamente o cartaz e marca o desligamento do diretor da companhia.
Ziembinski passa a integrar o conjunto e também a dirigir encenações, tais como: "Assim Falou Freud", de Anton Cwojdinski; "O Homem de Flor na Boca", de Luigi Pirandello, entre outras. "A Importância de Ser Prudente", de Oscar Wilde, marca a estréia do diretor Luciano Salce, que encena também "O Anjo de Pedra", de Tennessee Williams, outra grande e irrepreensível produção, que faz muito sucesso e fica semanas em cartaz. Ainda nessa temporada, numa criação considerada antológica, Cacilda Becker interpreta um garoto de 13 anos em "Pega Fogo", de Jules Renard, e a peça permanece meses em cartaz. "Paiol Velho", de Abílio Pereira de Almeida, é um dos raros textos de autor nacional levados ao palco pela companhia.
A montagem de "Seis Personagens à Procura de Um Autor", de Luigi Pirandello, em 1951, registra mais um trunfo de Adolfo Celi; seguida imediatamente de outra produção ambiciosa: "Convite ao Baile", de Jean Anouilh, encenação de Luciano Salce.
Duas novas realizações merecem destaque: "Ralé", de Máximo Gorki, com Maria Della Costa à frente do elenco, única produção em que atua no TBC, e "A Dama das Camélias", de Alexandre Dumas Filho, grandiosa encenação de Luciano Salce, comemoração dos três anos de existência do TBC, que ocupa o Theatro Municipal, destacando Cacilda Becker como protagonista.
Em 1952, a montagem mais bem acabada é "Antígone", uma versão de Adolfo Celi que une a tragédia clássica de Sófocles e a versão moderna de Jean Anouilh num programa duplo.
No ano seguinte, são montadas "Divórcio para Três", uma comédia de Victorien Sardou, sob a direção de Ziembinski, e "Treze à Mesa", de Marc-Gilbert Sauvajon, que marca o retorno de Ruggero Jacobbi à direção de espetáculos na casa e a estréia do jovem Antunes Filho, como assistente de direção da montagem.
"Assim É...(Se Lhe Parece)", de Luigi Pirandello, direção de Luciano Salce, reconduz o conjunto ao sucesso e é considerado pelo crítico Décio de Almeida Prado como "o melhor espetáculo que o TBC apresentou até hoje". Ao término de 1953, o TBC é um empreendimento artisticamente consolidado, mas amarga dívidas e registra alguns afastamentos, como os de Madalena Nicoll, Leonardo Villar, Ruy Affonso e Elizabeth Henreid. O casal Sergio Cardoso e Nydia Licia sai para fundar sua própria companhia, a Companhia Nydia Licia-Sergio Cardoso .
No ano de 1954 é a vez de "Mortos Sem Sepultura", de Jean-Paul Sartre, em direção de Flaminio Bollini; e Leonor de Mendonça, de Gonçalves Dias, dirigido por Adolfo Celi, realizações entremeadas a comédias e vaudevilles sem significado maior. A crise econômica, todavia, continua rondando o empreendimento. Como alternativa, Franco Zampari abre uma sucursal do TBC no Rio de Janeiro. Pensa, desse modo, explorar mais longamente as produções.
A primeira montagem de 1955 é "Santa Marta Fabril S. A.", de Abílio Pereira de Almeida, sucesso estrondoso de crítica e público. Após um incêndio, que destrói parte dos equipamentos e figurinos, a companhia volta com as boas encenações de Ziembinski para "Volpone", de Ben Johnson, peça que confirma o talento de Walmor Chagas, e Maria Stuart de Schiller, em um grande embate cênico entre as irmãs Cacilda Becker e Cleyde Yáconis. Mas 1955 marca a saída de um núcleo importante: Tônia Carrero, Adolfo Celi e Paulo Autran, desligam-se do TBC para fundar companhia própria no Rio de Janeiro.
Os próximos anos serão oscilantes para o conjunto. Entre as montagens bem-sucedidas do ano de 1956, constam: "A Casa de Chá do Luar de Agosto", de John Patrick, primeira encenação do belga Maurice Vaneau para a companhia; "Eurydice", de Jean Anouilh, direção de Gianni Ratto e "Gata em Teto de Zinco Quente", de Tennessee Williams, outra direção de Vaneau.
Em 1957, "Rua São Luís, 27 - 8º Andar", de Abílio Pereira de Almeida, é escolhido porque o autor, após triunfante carreira com Moral em Concordata, pelas mãos de Maria Della Costa, insiste com Franco Zampari para que invista no texto e entregue a encenação a Alberto D'Aversa, o novo diretor artístico. O sucesso da escolha adia parcialmente nova crise na rua Major Diogo.Ainda nesse ano, Cacilda Becker sai do conjunto, levando consigo Walmor Chagas, para fundar o Teatro Cacilda Becker - TCB.
Em 1958 surge uma realização de sucesso: "Um Panorama Visto da Ponte", de Arthur Miller, outra ótima encenação de D'Aversa. No mesmo ano, o Teatro de Arena estréia "Eles Não Usam Black-Tie" e, no ano seguinte, o Teatro Maria Della Costa - TMDC leva à cena "Gimba", dois textos de Gianfrancesco Guarnieri que expõem a realidade brasileira com vigor.
Um novo momento artístico se desenha então no horizonte, atraindo o público e, a partir dele, Franco Zampari perde o pé na condução do TBC. A crise financeira, artística e de repertório torna-se incontornável. Em 1959, será a vez de Fernanda Montenegro abandonar o TBC, fundando com Sergio Britto, Gianni Ratto e Ítalo Rossi, o Teatro dos Sete.
Em 1960, Franco Zampari entrega a direção da casa à Sociedade administradora e a direção artística a Flávio Rangel, primeiro diretor brasileiro a assumir a companhia. Após uma injeção de verbas públicas, visando sanear as despesas, há o redirecionamento do repertório e sua primeira encenação é a de "O Pagador de Promessas", de Dias Gomes. Inicia-se, desse modo, a fase nacionalista do TBC.
Flávio dirigiu ali alguns sucessos de impacto: "A Semente", de Gianfrancesco Guarnieri; "A Escada", de Jorge Andrade, ambos de 1961; "A Morte de Um Caixeiro Viajante", de Arthur MiIler e "A Revolução dos Beatos", de Dias Gomes, como também "Yerma", de Federico García Lorca, conduzido por Antunes Filho, 1962; e "Vereda da Salvação", de Jorge Andrade, última produção da companhia, em 1964.
O TBC foi o empreendimento que transformou o rumo da cena nacional. A partir da experiência desta companhia, cujas atividades se estendem por 16 anos, consolidou-se o advento da encenação moderna no país; a profissionalização dos atores; a simbiose entre divertimento e cultura, sem que se perca de vista o fator da produtividade aferido pelo faturamento da bilheteria; o treinamento e a formação do ator no sentido da subordinação ao conceito do espetáculo, ou seja aos parâmetros da encenação (a visão do diretor); tem também o projeto da casa de espetáculos agregando uma oficina de produção teatral (ateliê, guarda-roupa, marcenaria, arquivo).
Ao longo de sua existência o TBC alternou grandes sucessos e fracassos de público. Talvez por isso tenha ficado vulnerável às constantes crises econômicas que o levaram ao fechamento em 1964.
O TBC é um marco na história do teatro brasileiro. Fez uma das mais importantes revoluções do teatro no Brasil ao estabelecer um novo conceito de profissionalismo. Apresentou textos de qualidade, com montagens bem cuidadas e renovou o cenário cultural brasileiro.
Referências
http://www.infoescola.com/artes-cenicas/teatro-brasileiro-de-comedia/
http://www.teatro.noradar.com/teatro-brasileiro-de-comedia.htm
http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_teatro/index.cfm?fuseaction=cias_biografia&cd_verbete=656
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